De Cotia a Águas da Prata – desbravando parte do interior

Pelo que vocês perceberam, o ponto de partida das minhas viagens tem sido sempre São Paulo, ou Vargem Grande. Acho que não preciso explicar muito porque. É onde moro e sair de casa pedalando para chegar a qualquer lugar tem sido o melhor que posso fazer.

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Pé na estrada!

Esta viagem não foi diferente. Decidido a passar o Natal na casa da vovó, no interior do estado de São Paulo, eis que optei por fazer o percurso de bicicleta, de Vargem Grande Paulista a Águas da Prata. A cidade fica na região conhecida como Alta Mogiana, ou Circuito das Águas Paulistas. Para quem não conhece, Águas da Prata é uma famosa estância hidromineral, e fornece água para boa parte dos mercados e restaurantes não só do mesmo estado. Além disso é rica em trilhas, rios, cachoeiras e montanhas, ou seja, perfeita para o cicloturista! Não a toa, foi lá onde se iniciou o percurso conhecido como Caminho da Fé, uma rota de peregrinação inspirada no Caminho de Santiago de Compostela e que tem como destino a cidade de Aparecida do Norte.

O PRIMEIRO DIA

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Descanso no centro de São Roque

de viagem foi incrível, saindo de Vargem Grande (próximo a Cotia – cerca de 40km da capital paulista), passando pela montanhosa cidade de São Roque e chegando a Itu, onde escolhi para dormir uma pousadinha bem simples perto da praça central. Eu até queria acampar, mas teria que sair da cidade e já estava cansadão. Optei por uma estadia “super luxo”, pelo menos para os meus padrões Camelares.

SEGUNDO DIA:

Saída cedo de Itu, com o dia ainda amanhecendo. As vezes pegar uma pousadinha tem suas vantagens (no caso o preço era de R$20,00 a diária) – banho quente; dormir em uma cama e acima de tudo, o café da manhã! O café era meio fraquinho, mas deu pra comer umas frutas, pão, café e leite. Segui rumo a Campinas, com o intuito de chegar em Mogi Mirim, para o pernoite. Passei por Indaiatuba e cheguei em Campinas. Lá repousei um pouco a sombra de uma árvore, próximo a uma escola infantil. Campinas é muito quente e o calor vem de todos os lados. Parecia que a borracha do pneu estava derretendo e grudava na pista, o que fez com que eu me sentisse realmente um camelo!

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Itu é uma cidadezinha linda. Essa praça fica bem no centro

Passado o baque campineiro, afinal, além do calor, o trânsito na cidade também castiga bastante o ciclista, mesmo que ele esteja só de passagem. Pegar o anel de contorno para mim estava fora de cogitação. O caminho é mais longo, mas o principal motivo para evitá-lo é a quantidade de veículos pesados e a forma agressiva que seus condutores se comportam na estrada. Nesse dia já havia pedalado 54km e ainda faltavam 58 para Mogi Mirim. Acredite, carregando 30kg na magrela é trabalhoso. Bora pra pista!

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Saindo de Itu

Passando por Jaguariúna me deu uma vontade louca de entrar na Holambra, cidadezinha colonizada por holandeses e cujo mercado de flores é o mais famoso do Brasil. Eu estava com a idéia fixa de chegar na casa da minha avó para a ceia de natal, então acabei deixando Holambra para trás. Está certo que eu já conheço o lugar, o que tornou mais fácil minha decisão mas confesso que ainda não havia percebido que poderia ter parado em todo e qualquer pico que me desse vontade, para curtir mesmo! A estrada nesse momento é uma verdadeira montanha russa, cheia de subidas e descidas, não muito altas porém exigentes. Trata-se de um bom treino, se você não estiver com a bike carregada pra cacete como eu. Nesse caso, todo cuidado é pouco.

ESPELUNCA

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Igreja em Mogi Mirim decorada para o Natal

Chegando em Mogi Mirim optei novamente por um hotelzinho fedido. Nesse caso tratava-se de uma espécie de cortiço. Uma casa velha que os proprietários alugavam os quartos, a sala e se vacilar até a própria mãe. A sala era dividida em pequenos cômodos por lençois pendurados em fios de varal, o que me fez lembrar uma U.T.I de hospital vagabundo. O cheiro era estranho, eu até hoje não sei porque não fui embora! Peguei o único quarto com porta e chave, tomei um banho (de chinelos), tranquei meus pertences e saí para uma volta no centro da cidade. Era véspera de Natal e a praça estava toda enfeitada. Fiquei parado na frente da Igreja e uma súbita vontade de assistir a uma missa tomou conta de mim. Entrei. Tenho formação católica mas não sou praticante. Não entrava em uma igreja há tempos e confesso que foi uma experiência ótima.

SANTA APARECID!

Voltei pra espelunca e capotei. As 5A.M saí correndo, já atacado da rinite. Escolhi o caminho por dentro, para chegar em Mogi Guaçu e depois pegar uma estradinha para Espírito Santo do Pinhal. A noite mal dormida acabou sendo determinante para o andamento do rolê. No meio da estrada que liga Pinhal a São João da Boa Vista meus suprimentos já haviam se esgotado. Não porque havia programado mal, mas porque consumi mais do que o necessário. Não havia mais água e nem comida e tive que parar no primeiro sítio que avistei para pedir ajuda. Uma senhora muito simples atendeu a porta, e depois que eu expliquei minha situação, perguntei se ela poderia me ceder uma fruta e um pouco de água. Quando a Dona Aparecida (sim, esse era o nome dela!) voltou de dentro da casa eu quase chorei e emoção. Ela me trouxe dois sanduíches de frango desfiado, um copo de café e uma banana. Eu agradeci imensamente, e ela respondeu que se eu tivesse chegado mais cedo ela teria me convidado para almoçar. A simplicidade e a receptividade daquela senhora me cativaram na hora. Mal sabia ela que em parte seria responsável pela paixão que desenvolvi pelas cicloviagens!

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Oficina que serviu de abrigo durante forte chuva em Pinhal

A partir dali a viagem foi uma delícia! Recuperado do desgaste físico e psicológico que sofrera até então, passei a pedalar com mais alegria. Até a chuva. Começou a chover leve, mas já incomodava e o vento indicava que tinha chumbo grosso pela frente. Passei a procurar um lugar coberto e encontrei uma fazenda com a porteira aberta. Tentei chamar pelo proprietário, batendo palmas e assobiando, mas a chuva apertava e ninguém respondia. Encontrei um galpão. Era a oficina do fazendeiro, muito arrumadinha por sinal. No meio da chuva o proprietário aparece e eu com medo de ser recebido a bala de pronto fui explicar minha situação. Ele me recebeu muito bem, ofereceu água e ficamos um bom tempo a conversar, até que a chuva parasse. Fim  da chuva, fim de papo e mais uma vez, pé na estrada. Em pouco tempo estava em São João da Boa Vista e logo chegaria a Águas da Prata.

O Natal foi incrível e depois disso passaria o ano novo na praia. Mas isso é uma outra história!

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