São Paulo/Paúba – não se desespere, podia ser pior!

Esse pode ser um bom roteiro para se curtir uma praia no litoral Norte de São Paulo, mas também pode ser um belo perrengue! Tudo vai depender do caminho que você fizer.

A minha viagem foi mais pra segunda opção (perrengue), por isso preste atenção em algumas dicas! Eu devo dizer que cheguei a Paúba são e salvo, mas com falhas no percurso (planejamento mal feito), dia de pedal perdido, camping em local totalmente escroto e muito stress!

Origem: São Paulo; Destino: Paúba; Caminho percorrido: Manu/Piaçaguera/Rio-Santos; Percurso Ideal: Manu/Santos (balsa) Guarujá (balsa) Bertioga/Rio-Santos; Tempo de viagem: de 2 a 3 dias; Média de km/dia: entre 60 e 90

A CAGADA

Tudo começou com a minha teimosa mania de querer inventar. Eu explico. Conversando com alguns “locais” da região de Caucaia do Alto, município próximo a Cotia, fiquei sabendo que era possível descer a pé pela linha do trem com destino a Santos. Como eu já pedalava por aquela linha para chegar à Represa Pedro Beicht, onde costumava nadar, pensei que seria incrível continuar o caminho e chegar de forma triunfal a baixada! Porra…pedalar por um lugar totalmente novo e pouco frequentado, sem o assédio de carros e caminhões, em meio a uma paisagem incrível e chegar a baixada seria um sonho! Depois pedalaria até a Rio-Santos de onde seguria até Paúba!

Trecho pedalável dos trilhos da antiga Sorocabana

Trecho pedalável dos trilhos da antiga Sorocabana

Após fazer um traçado pelo Google Maps, reunir minha trouxinha de roupas, equipamentos e acessórios, decidi partir num feriado, assim teria tempo para fazer a trip na boa e ainda curtir uma praia. Acho que foi em 15/11/12, aquele feriado em um mês que só tem feriados. Saí de Vargem Grande Paulista, a 40 km da capital, e em 45 minutos já estava pedalando na referida linha do trem. Essa linha é muito bonita, faz parte da antiga Sorocabana, e hoje é utilizada pela América Latina Logística (ALL) para o transporte de cargas, jamais de passageiros (uma pena!).

Lá me vou pedalar pela valeta, ao lado da linha, isso porque o resto é só pedregulho, impossível de se manter em movimento em cima da magrela. O caminho ia bem, pelo menos no trecho que eu já conhecia, e seguiu assim por mais alguns quilomteros. Com as obras de duplicação da ferrovia, logo comecei a sentir na pele (nos ombros, nas costas e na bunda) que o rolê não seria tão fofinho quanto imaginei! Em alguns trechos ainda havia vestígios da antiga linha da Sorocabana, em outros, o rastro de uma pequena estradinha de terra que margeava a linha, mas no geral, era só pedregulho!

Passados alguns quilometros, entre pedaladas, trechos empurrando a bike, pontes e túneis assustadores (porque se vier um trem enquanto você faz a travessia, bau bau!) eis que eu ganho o primeiro furo no meu pneu. Feito o reparo, insisti no caminho, e percebi que minha suspensão estava ganhando um jogo, ou seja, estava indo pro abraço! Não havia muito o que fazer, então segui viagem, tentando pegar leve. Alguns quilometros adiante um novo furo no meu pneu, o que me levou a refletir sobre a viabilidade do trajeto. Poderia passar quilometros empurrando a bike no meio do nada, sem aparecer uma alma viva! Novamente o reparo, mas desta vez procurei os funcionários que trabalhavam na duplicação da via para mais informações.

TENTANDO RESOLVER

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O dia já se acabava e eu ainda estava no Rodanel!

Me indicaram uma saída de terra, a poucos quilometros dali, de onde eu poderia acessar a Rodovia Regis Bittencourt, seguir para o Rodoanel, sair na Rodovia dos Imigrantes e descer para Santos pela velha e boa Estrada de Manutenção. Dito e feito! Meu estoque de suprimentos já tinha se esgotado, não tinha mais água potável e nenhum sinal de um posto ou local de abastecimento (mercado, granja, sítio, casa ou espelunca!). No final do primeiro dia, tendo pedalado cerca de 120km, eis que chego a Rodovia dos Imigrantes, na altura do McDonalds, distante apenas poucas dezenas de quilometros da capital! Foi-se meu primeiro dia de pedal, e eu não ia descer a serra a noite, logo, tinha que procurar um lugar para acampar e já pensava em desistir, tamanha minha irritação com as péssimas escolhas que eu mesmo fizera.

Dormi mal pra cacete, acampado atrás do McDonalds, que com o feriado parecia uma festa rave. Caminhões, carros e motos chegavam a todo momento, buzinando, com som alto, gente bêbada e feliz, enquanto eu passava um frio do caralho dentro da minha barraca, pois havia esquecido meu sleeping bag! Só pensava em acordar pela manhã e voltar pra minha casa, de onde realizava que jamais deveria ter saído! Pelo menos pude comprar umas besteiras no posto, já que frutas, castanhas e cereais não vendem em lojas de conveniência. Engoli um sanduíche do McDonalds e me abasteci de bolachas e afins, ainda pensando em acordar cedo e voltar pra casa. Enchi minhas caramanholas com água da torneira, enfiei a magrela dentro da barraca, com medo do que pudesse acontecer com ela, e me enganei achando que conseguiria dormir.

A REDENÇÃO

O dia amanheceu e eu saí da barraca pra ver o tempo. Estava frio. Pouca gente no que parecia ter sido uma guerra civil na noite anterior. Eram 6 da manhã. Levantei, tomei um café no posto, comi um pão de queijo e eventualmente deixava algum pensamento passar pela minha cabeça, mas 90% dela era desocupada por um vazio de quem tinha passado a noite em branco. Quando o café começou a fazer efeito e eu passei a raciocinar, decidi seguir viagem. Era cedo, não havia muito movimento na estrada e eu estava muito perto da entrada da “Manu” (como é conhecida a estrada de Manutenção), ou seja, em pouco tempo eu estaria na baixada, ainda de manhã, para seguir até a Praia do Engenho, ponto que eu esperava ter passado a noite.

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Rio que acompanha a descida da Manu

Devo dizer que foi a decisão mais acertada da viagem! Poucas pessoas sabem o que é chegar na Manu as 6h30 da manhã, sozinho, em meio aquela neblina eterna da serra. Eu só conseguia gritar para Deus e o mundo qualquer coisa que estava entalada na minha garganta. Os gritos eram de alegria e emoção. Comecei a pedalar feito um louco, em zigue-zague, até me lembrar dos riscos que aquela pista oferecia, principalmente porque está sempre úmida. Retomei a consciência e continuei descendo, sem tirar por um minuto sequer o sorriso do meu rosto. Parei por diversas vezes pra contemplar a vista, beber água, descansar um pouco e esquecer do trauma da noite anterior. Minha viagem agora tinha tomado o rumo que eu queria e o que ficou pra trás se tronaria estória pra contar.

Chegando na base da montanha não tive dificuldades para passar a entrada do Parque Estadual (o que era para ser uma estrada/parque). Muitas vezes os seguranças impedem a passagem de ciclistas, principalmente por não terem autorização prévia. Já vi eles obrigarem grupos inteiros a fazer meia volta, o que comigo certamente iria render muita discussão. Como ainda era cedo não havia ninguém na guarita e o acesso foi baba. Dali segui até a refinaria da Petrobrás e depois  sentido Santos. Foi então que fiz a segunda grande cagada da viagem.

A SEGUNDA GRANDE CAGADA

Com o olho no relógio por ter perdido um dia inteiro de pedal, optei por pegar a Piaçaguera e depois a Rio-Santos do começo até Paúba. Devo confessar que a pressa sempre estraga qualquer rolê de bike, e se não estraga, pelo menos te faz curtir menos do que você poderia. A Piaçaguera é simplesmente um inferno, cheia de caminhões cujos motoristas dormem e invadem o pequeno acostamento, colocando a vida do ciclista em risco com frequência. O calor, as condições de tráfego e o comportamento de risco de muitos motoristas fazem desta uma via a ser evitada. No trecho de serra da Piaçaguera, que merece algum respeito, a situação piora. A velocidade do ciclista diminui drasticamente e o acostamento desaparece, fazendo com que você vire uma isca fácil para os predadores. Pelo menos foi assim que me senti!

A OPÇÃO

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Pausa para descanso em Bertioga, perto da balsa

É claro que existe uma opção para a Piaçaguera! Só que apesar de conhecê-la muito bem, eu só fui considerá-la depois de sofrer com a escolha errada. Para uma viagem tranquila basta seguir para Santos, depois de descer a Manu, e pegar a balsa para o Guarujá. No Guarú você pedala até a balsa para Bertioga, pela estrada de Pernambuco, que passa por uma reserva e pelos acessos de Iporanga, São Pedro e Praia Branca. O caminho é muito bonito, mas nem por isso não oferece riscos. Você deve sempre ficar atento, mas é sem dúvida muito melhor e mais bonito (lindo em alguns trechos) do que a Piaçaguera.

E A VIDA SEGUE

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Praia do Engenho, aos 45 minutos do segundo tempo!

Depois de passar o trecho mais tenso, eis que chego na Rio-Santos. A partir daí a estrada tem acostamento por quase toda sua extensão, salvo alguns trechos de pequenas montanhas e alguns acessos para as praias. Mas para quem já chegou até ali, da pra tirar de letra. Em Bertioga cheguei a entrar para comprar água e descansar um pouco no gramado perto da balsa. Em seguida, próximo a Boracéia avistei um bar chamado Bar da Bica, e pensei logo que seria uma boa oportunidade para tomar uma ducha. A bica de água gelada estava lá, me esperando. Eram quase 15hs e eu estava morrendo de calor, de sede e de fome. Uma coisa mágica que acontece com o cicloturista, principalmente aquele que viaja carregado até a orelha, é a curiosidade que desperta nas pessoas. Em poucos minutos parado naquele modesto e simpático bar, já havia feito amigos. Eles queriam saber de onde eu vinha, para onde ia e porque tamanha loucura. Papo vai e papo vem e eu ainda ganhei um PF (prato feito), fresquinho e de peixe! Confesso que nessa hora, quando eu sentia minhas forças se exaurindo, aquilo alimentou meu corpo e minha alma. É extremamente gratificante conhecer pessoas dispostas a oferecer o pouco que tem, sem esperar nada em troca. Viver isso não tem preço e eu agradeço sempre por acontecer comigo.

Poucos quilometros depois da Boracéia peguei a saída para a Juréia, de onde acessei a Praia do Engenho. Um bom descanso na casa de um amigo e as energias recuperadas para seguir viagem. Banho de mar, macarrão, cama e bora pedalar no dia seguinte!

PEDAL LEGAL NO LITORAL

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Em Barra do Una, logo cedo, um cantinho para ver o mar

Juquehy

Mirante entre Barra do Una e Juquehy

Saindo da Praia do Engenho optei por ir até a Barra do Una pela estrada de terra que liga as duas praias. Entrei na Barra do Una para tirar uma foto e observar o mar, já que era cedo e eu tinha todo o tempo do mundo. A sequencia do caminho também foi por caminhos internos. Uma pequena estradinha liga Barra do Una a Juquehy. Tem uma subidinha meio chata, mas da pra tirar de letra. Lá em cima um mirante e a certeza de que a escolha foi acertada. Depois de percorrer toda a extensão de Juquehy pela rua da praia (que eu não sei o nome), optei pela saída mais ao norte, que desemboca na Rio-Santos, conhecida como “rua da ponte”. A Rio-Santos é sem dúvida nenhuma uma estrada incrível para pedalar mas não em toda sua extensão, pois o

Baleia

Praia da Baleia, também conhecida como “escolinha de surfe”

acostamento vai desaparecendo gradativamente, mas em geral, da acesso a belíssimas praias e o visual é coisa de cinema.

Após Juquehy a situação começa a complicar devido ao relevo acidentado e a grande quantidade de curvas. A velocidade da magrela diminui e você se torna pouco visível para os motoristas, já que as curvas escondem o que está por vir. Nessa hora todo cuidado é pouco. Foi assim para chegar a Camburi e depois Boiçucanga.

Camburizinho

Camburizinho – vista privilegiada

O GRANDE DESAFIO

Considerando todo o percurso, exceto os imprevistos, o grande desafio desse rolê já era conhecido, era a temida serrinha que liga Boiçucanga a Maresias. Com inclinação e  extensão consideráveis, transpor esse obstáculo significava praticamente decretar o sucesso da jornada. Castigado pelo calor, pelo cansaço e principalmente pela falta de respeito dos motoristas no litoral, cada pedalada parecia queimar minhas pernas e ainda deslocava minha bike apenas alguns centímetros. Cheguei a fazer 3 ou 4 paradas antes de chegar ao topo da montanha. Tirei meu capacete, camiseta, tênis (coloquei um chinelo) e fui em frente, tamanho o calor e a quantidade de suor! Nada supera a sensação de transpor um obstáculo como este. Quando eu cheguei ao topo um grito de vitória saiu de dentro de mim, com uma força que eu não imaginava que eu ainda tinha. Certamente quem ouviu deve ter achado que eu era louco! Passados alguns minutos, coloquei de volta meu tênis, minha camiseta e meu capacete. Era a hora da descida.

UMA DESCIDA E TANTO

Marecas

Uma das mais badaladas praias do litoral paulista, Maresias parece um comercial de TV

Se a subida da serrinha tinha sido punk, a descida prometia ser algo um tanto quanto perigoso. Eu confesso que adoro descidas, mas em alguns casos tenho medo do que pode acontecer. Nessa serra em especial, como em boa parte das estradas paulistanas, o acostamento não existe, há geralmente uma única pista para descer e duas para subir, devido a redução da velocidade de alguns veículos nesse último caso. Com apenas uma pista para descida, só me restava ocupar o meio da faixa, descer o mais rápido possível e torcer para ninguém tentar me matar. A minha grande surpresa foi que atrás de mim um carro entendeu minha situação e não tentou forçar a passagem em nenhum momento, chegando inclusive a segurar uma enorme fila de automóveis às suas costas, loucos para acelerar seus bólidos o máximo possível rumo a tranquilidade da praia.

Cheguei a Maresias sentindo que eu havia ganho a Copa do Mundo de futebol. Posso parecer egocêntrico, mas nesse momento eu era um herói. O meu próprio herói! Quem já passou por algo parecido sabe do que estou falando. O mundo fica lindo e você percebe do que você é capaz. Sabendo que em poucos quilômetros estaria no meu destino e que o pior havia passado, parei em um restaurante, pedi um prato de comida e uma cerveja. Era hora de gozar!

O DESTINO E A VOLTA

Pauba

A pequena e charmosa praia de Paúba

Muitos me chamam de louco quando descobrem que as vezes fico três, quatro dias ou mais pedalando para passar apenas um dia no meu “destino”. Mas estou convencido de que viver não é a busca por um destino, e sim o caminho que você faz até chegar lá. Logo faço disso a orientação para minhas viagens. Fui com o intuito de acampar no terreno de um amigo, mas por um capricho do destino encontrei a Mari, uma pessoa muito especial que me recebeu em sua casa, onde tive o prazer de conhecer sua família e a quem sou eternamente grato. Comemos pizza, bebemos cerveja, trocamos muitas e boas idéias e pude tomar um banho quente, dormir numa boa cama e descansar para a volta.

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Em Toque-toque um banho de cachoeira pra refrescar

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Roubaram a cena!

No dia seguinte bem que eu quis ficar, mas a estrada me atraía como um imã chama o metal, e eu tive que seguir. Passei pela praia de Santiago, Toque Toque (onde tomei banho de cachoeira), Guaecá, Barequeçaba e finalmente São Sebastião, onde tomei um ônibus de volta para São Paulo. Esse foi o fim do feriado, mas jamais ousaria dizer que foi o fim da minha viagem…

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4 responses to “São Paulo/Paúba – não se desespere, podia ser pior!

  1. Du, parabéns pelo blog! Foi um prazer recebê-lo em casa! Saiba que as nossas portas estarão sempre abertas para você em suas aventuras! Beijo grande, Mari

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