De Genebra a Paris – Jura, Borgonha e Ile de France

A caminho do Lac Leman

A caminho do Lac Leman

Quando embarquei de Guarulhos para Amsterdã, no dia 01/04 deste ano, pedalar pela Itália e Suíça estava fora dos meus planos. Naquele momento eu ainda acreditava que seguiria um roteiro traçado sob forte influência das minhas condições físicas e financeiras, do relevo e do clima que eu esperava, além do tempo necessário para o deslocamento somados à todas incertezas de uma viagem de bicicleta por 6 meses. É claro que com tantas variáveis, esse modelo não foi pra frente. Assim que pisei na Europa, quanto mais eu pedalava, menos me importava com a quantidade de quilômetros por dia, a velocidade que eu me deslocava ou se chegaria a tempo nos pontos X, Y ou Z. A partir daí, assumi que não fazia questão de percorrer a menor distância entre dois pontos, e sim o caminho mais agradável.

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Uma das fontes do balneário de Evian, as margens do Lac Leman

Já com algumas semanas de estrada, um amigo de longa data com o qual eu havia perdido o contato me mandou uma mensagem dizendo estava morando em Genebra e que eu não poderia deixar de visitá-lo. Dias antes eu havia recebido um convite para passar um tempo na casa de uma amiga que se mudara recentemente para Milão. Eu dei uma rápida olhada no mapa para ver como encaicharia Milão e Genebra no meu roteiro. Se a princípio havia planejado atravessar o sul da Alemanha para depois entrar na França, agora aproveitaria para conhecer a Suiça, visitar o Suíço Maluco que conheci perto de Hamburg, cruzar os Alpes, encontrar uma amiga na Itália e cruzar os Alpes novamente, para chegar em Genebra onde poderia rever mais um amigo!

Genebra não faz feio quando o assunto é bicicleta

Genebra não faz feio quando o assunto é bicicleta

A essa altura da viagem o desafio de atravessar os Alpes era tudo que eu queria. Além disso, a possibilidade de encontrar pessoas conhecidas era um grande incentivo! Aos poucos meu roteiro foi se adaptando, e agora ele ainda segue algumas linhas pré-determinadas, mas no geral tem sido bastante livre. Me desculpem o enorme “nariz de cera”, mas senti a necessidade de compartilhar um pouco como tem sido também meu planejamento (ou não!).

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Em Genebra, às margens do Lac Leman

Depois que atravessei o Gran San Bernard, para entrar na Suíça a caminho de Genebra, desci por quase 40 quilômetros ininterruptamente até Martigny e no dia seguinte acampei à beira do Lac Leman. Logo de manhã saí pela costa sul do lago, já em território francês, para só então chegar em Genebra, novamente na Suíça. Parece confuso, e as vezes é um pouco, já que na Suíça a moeda não é o Euro, e isso pode complicar as coisas, mas o que importa mesmo é que o Lac Leman é lindo e pedalar às suas margens uma delícia!

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Enquanto isso, nas montanhas do Jura

Fiquei muito feliz pelas minhas escolhas. Encontrar um amigo em Genebra, descansar um pouco e também conhecer esta parte da Suíça foi ótimo. Embora o país seja pequeno, há muita diferença entre as regiões de língua francesa, italiana e alemã. Genebra, por exemplo, não é uma cidade tão “mauricinha” quanto Zurique. Fora isso, pedalar pela Suíça é sempre ótimo. Estradas perfeitas, boas indicações e um trânsito gentil. A cidade de Genebra me conquistou, assim como aconteceu em Viena e já havia ocorrido antes em Amsterdam, Berlin e algumas outras.

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Fácil e aradável é pedalar na região da Borgonha

Saindo de Genebra continuei contornando o Lac Leman, agora na margem norte, para chegar em Nyon, onde acessei a estrada para o Lac de Joux, no Vale do Jura. Este vale é tecnicamente a divisa com a França, uma região de montanhas muito bonita e bastante procurada por campistas. O alto destas montanhas foi o único lugar que vi até agora onde o “camping selvagem”, por assim dizer, é permitido. Além dos campistas, também vi uma infinidade de mochileiros e alguns ciclo-viajantes.

Do outro lado da montanha já estava na França. A partir dali meu deslocamento até Paris seguiria uma combinação de rios, já que esse tipo de referência se mostrou infalível. Entre eles o Rio Armaçon (Canal de Borgonha) e o Sena. Nem preciso dizer o prazer que é pedalar as margens destes rios e canais. Uma das maiores cidades pelas quais passei antes de chegar em Paris foi Dijon, mas confesso que me agradaram mais as pequenas vilas francesas, muitas delas com casas feitas de pedra, pequenos palacetes, pontes, igrejas e

Às margens do Armaçon

Às margens do Armaçon

castelos.

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Uma enorme rede de canais e eclusas em toda região da Borgonha

Seguindo o Sena foi muito fácil chegar bem próximo a Paris, quando as coisas se complicaram um pouco. A região metropolitana de Paris conta com alguns portos e uma grande zona industrial, onde o caminho torna-se mais complicado, já que em muitos pontos não é possível seguir pelas margens do rio. Contornado o problema, consegui finalmente entrar na Cidade Luz. Por indicação de uma senhora que conhecera há 70km da capital francesa, procurei sem sucesso por um camping. Minha sorte foi ter encontrado uma família de turistas russos que estavam acampados lá, e me acompanharam até o local, já que nem os bombeiros ou policiais locais sabiam da existência do camping! Apesar de ser mais caro do que os demais campings franceses, para os padrões de Paris trata-se sem dúvida nenhuma da opção mais barata (EU20,00/dia).

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Capacidade de legendar incompatível com a foto

Estava a 6km do centro da cidade, às margens do Sena e ao lado de um belíssimo parque (Longchamp). Dali bastava pegar uma avenida que cortava o parque para chegar no começo da Champs Elyses, ou seja, no olho do furacão! A experiência de pedalar em Paris é bastante estranha e me fez lembrar um pouco da Itália. Embora haja uma ótima estrutura cicloviária, faixas exclusivas para bicicletas, pistas compartilhadas com ônibus, bike boxes e tudo que você possa imaginar, assim mesmo é confuso. O trânsito de automóveis é caótico e isso reflete obviamente nas condições para pedalar. Claro que a bicicleta ainda é a melhor opção para se deslocar em Paris, mas todo o cuidado é pouco, já que os motoristas chegam muito perto uns dos outros, deixando pouco espaço entre os carros para qualquer deslocamento. Além disso, pedestres e ciclistas não respeitam muito os sinais de trânsito, e tem muita, muita gente nas ruas!

Graças ao meu Camelo, consegui em apenas um dia na capital francesa, conhecer muita coisa. É claro que para conhecer profundamente Paris é necessário passar muito mais tempo, mas sem dúvida nenhuma se não fosse de bicicleta, precisaria de 2 ou 3 dias para ver tudo que eu vi, dado o trânsito na cidade. Minha intenção era ficar até domingo por ali, para assistir a chegada do Tour de France, mas o camping estava todo reservado e eu não tinha tanta grana para gastar. Decidi ir para Versailles e tentar me hospedar por lá, era minha última chance.

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De Genebra a Paris

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Catedral de Notre Dame de Paris e bicicleta

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2 responses to “De Genebra a Paris – Jura, Borgonha e Ile de France

  1. Parabéns pela interação flexível e “orgânica” com a nossa velha Europa, perfeito!
    Gostei do seu acampamento selvagem nas florestas do Jura (francês e suiço): É o berço do anarquismo europeu, refugio de Bakunin, Kropotkin e tantos outros/outras! Até hoje, se faz os ref. congressos naquelas cidadezinhas corajosas que conservam a tradição revolucionária!
    Vai continuar pelo Saône/Rhône ou pela Loire (depois de Nantes seguindo o litoral até o sul)?

    Grande abraço

    Wolf

    • Olá, Wolf, já estava sentindo falta dos seus comentários!
      Vou seguir pelo Loire até o litoral e descer até Bordeaux, para depois seguir para Toulousse. De lá a Perpignan e a travessia dos Pirineus para chegar em Barcelona. Isso tudo em tese né? Tudo pode mudar, o que sinceramente eu também acho muito bom! Grande abraço!

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