Pedalando pelo caminho de Santiago de Compostela – Introdução

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Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar

Ao contrário do que possa parecer, o caminho de Santiago não consiste em apenas uma estrada específica, mas sim numa combinação de rotas a partir de qualquer ponto de partida, em geral no continente europeu, com destino a Catedral de Santiago de Compostela, localizada na cidade espanhola de mesmo nome. Ou seja, quem determina como será seu caminho é o próprio viajante. Os primeiros peregrinos começaram a chegar ao local onde hoje se encontra a catedral ainda no século IX, para visitar o túmulo do apóstolo Tiago – morto e decapitado em Jerusalém, e posteriormente enterrado em segredo por seus fiéis num bosque próximo a Finisterre.

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Catedral de Santiago de Compostela

Embora seja tradicionalmente percorrido a pé ou a cavalo/mula, de uns tempos para cá tornou-se um caminho muito popular entre ciclistas do mundo todo, sendo uma opção tão desafiadora quanto as demais, e igualmente encantadora. A rota mais conhecida tanto para pedestres como para ciclistas é o Caminho Francês (+/- 800km), que parte de Saint Jean Pied de Port, na França, passa pelos Pirineus e atravessa o norte da Espanha, até Santiago de Compostela. Outros caminhos um pouco menos frequentados mas também muito bonitos são o Caminho do Norte (823km), que segue pela costa norte espanhola, o Caminho Inglês (+/- 200km), que pode partir de Ferrol ou A Coruña e o Caminho Primitivo (207km).

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Imagem mostra algumas ramificações do Caminho de Santiago

Neste texto irei explicar em linhas gerais um pouco do caminho e seu formato, além de colocar alguns links interessantes, para somente nos próximos posts descrever a rota que eu fiz, combinando três linhas: O Caminho Catalão (Barcelona – Logroño); um trecho do caminho Francês (Logroño – Santiago) e o Caminho Português (Santiago – Porto – Lisboa). Esta foi a maneira que encontrei de atravessar a Espanha de bicicleta, entrar em Portugal e chegar em Lisboa, onde tomaria o avião de volta ao Brasil.

O caminho atravessa basicamente a Espanha, por regiões de grande variação de altitude, passando por pontos relativamente altos, como os Pirineus e o pico da Cruz de Ferro, até regiões mais baixas, como nos vales dos rios. O que pode dificultar um pouco é a grande quantidade de montanhas e não necessariamente sua altitude. Treinar um pouco antes dessa jornada é uma boa ideia, para pegar condicionamento e se acostumar com o equipamento que irá levar.

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El Camino

Credencial do Peregrino

  • Embora eu tenha feito minha credencial do peregrino apenas em Montserrat, ainda na Catalunha (ES), já havia visto indicações do Caminho de Santiago enquanto pedalava pela Alemanha, Áustria, Suíça, Itália e França. A credencial do peregrino é um documento que possibilita ao viajante se acomodar nos albergues do Caminho, geralmente exclusivos para peregrinos, e quando devidamente carimbada, serve como documento para obter um certificado no final do percurso, a famosa Compostela.
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Caminho de Santiago na Áustria

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Na Espanha

Até aquele momento eu acreditava que o Camiño, como é carinhosamente chamado o trajeto, tinha uma única rota definida e não sabia que poderia ser tão diversificado e aberto. Na verdade existem inúmeras ramificações ou combinações possíveis, mas muitas delas convergem no Caminho Francês, o que ajudou a popularizar este curso, mais do que os outros. Também por isso é no Caminho Francês que se encontra a maior oferta de albergues, pousadas e hotéis para peregrinos. Nem por isso você é obrigado a fazer este curso, ou começar sua viagem em Saint Jean Pier de Port. Para os peregrinos mais ortodoxos, o ponto de partida para o Caminho de Santiago é onde você está quando começa a viagem, ou seja, a sua casa.

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O Caminho também pode ser feito a cavalo

Na hora de planejar sua viagem, portanto, sugiro que procure uma das associações de amigos do Caminho de Santiago perto do seu ponto de partida, para fazer a credencial e obter mais informações. As credenciais também podem ser feitas em paróquias e albergues do caminho. No Brasil existem várias associações, nacionais ou regionais que podem oferecer a credencial gratuitamente (para associados) ou com algum custo, que pode chegar até R$40,00 (com entrega do documento pelo correio). Fica a dica: é mais barato fazer sua credencial lá fora – em Montserrat (ES), onde fiz a minha, paguei EU0,70 (setenta centavos de Euro), mas mesmo em outras partes da Espanha este valor varia, podendo chegar a EU3,00 (três Euros).

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Exemplo de credencial do peregrino, já carimbada

Existem diversas maneiras de definir sua rota e em que tipo de estabelecimento irá pernoitar. Eu, por exemplo, quando comecei a pedalar pelo caminho de Santiago, não sabia aonde iria passar cada noite, e preferia determinar isso ao longo do dia, do ambiente e das minhas condições físicas e psicológicas. Podia acampar na floresta, em alguma fazenda ou em camping; podia dormir em albergue ou pensão e há também pousadas ou hotéis (embora esta opção seja mais cara) para todo gosto. Vale ressaltar que, como eu disse anteriormente, a maior oferta de albergues está concentrada no Caminho Francês, e que se você escolher uma outra rota, poderá passar quilômetros e quilômetros sem uma hospedagem do tipo.

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Refúgio para peregrinos próximo a Cruz de Ferro

Tradicionalmente os peregrinos dormem em albergues (para os quais geralmente é necessária a credencial), que variam muito quanto ao preço e infraestrutura oferecida. A ver:

  • albergues paroquiais: muitos deles são gratuitos e apenas pedem donativos. Normalmente ficam junto de igrejas ou das casas paroquiais, mas você também pode encontrar alguns no meio do caminho. Alguns oferecem ceia e café da manhã comunitários;
  • albergues municipais: seus preços variam de EU3,00 a EU9,00 (três a nove Euros) e geralmente tem quarto coletivo, banheiro e cozinha. Alguns não possuem cozinha;
  • albergues particulares: preços que começam em EU5,00 (cinco Euros) e nem sempre tem cozinha;
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Ceia comunitária em albergue paroquial

Campings:

  • em geral os preços de camping começam em EU6,00 (seis Euros), mas alguns albergues também permitem que os peregrinos acampem, quando há espaço exterior;
  • O camping selvagem também é uma opção de pernoite, embora a prática seja ilegal na maioria dos países da Europa ocidental. Nesses casos você deve armar sua barraca no final do dia, em locais protegidos do acesso de pessoas, se possível perto de rios e nunca passar mais de uma noite no mesmo lugar, saindo na primeira hora da manhã.
  • Outra opção, que funciona muito bem é pedir para acampar em fazendas. Muitos fazendeiros oferecem seus terrenos gratuitamente, mas também é muito comum que cobrem a partir de EU3,00 (três Euros);

Escolas Municipais e Corpo de Bombeiros:

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Albergue em escola municipal, no Caminho Português

  • Algumas escolas municipais possuem abrigos para peregrinos, no mesmo molde dos albergues, alguns deles gratuitos. Há também escolas que oferecem seus ginásios como teto para o viajante. Em Portugal é comum encontrar abrigo no Corpo de Bombeiros, às vezes de graça, às vezes pagando até EU10,00 (dez Euros);

* Seja em albergues, em campings, escolas ou bombeiros, lembre-se sempre de levar seu próprio saco de dormir!!!!

Pensões, Pousadas ou Hotéis:

  • Muito comuns em todo o caminho, este tipo de estabelecimento oferece mais conforto para os peregrinos, porém com custo elevado. Dificilmente você irá encontrar uma pensão, pousada ou hotel por menos de EU15,00 (quinze Euros) diária por pessoa. Às vezes possuem café da manhã incluso e frequentemente oferecem uma refeição chamada Menu do Peregrino (entrada, prato principal e sobremesa), assim como em muitos restaurantes do Caminho, por valores a partir de EU8,00 (oito Euros);

Alimentação:

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Barraca, fogareiro e panela ajudam a diminuir os custos de hospedagem e alimentação

  • Para baratear custos com alimentação eu levava comigo panela, fogareiro, talheres, colher de pau, coador de café (pano), uma pequena garrafa térmica e outros acessórios de cozinha. Com isso quando parava para fazer compras no mercado poderia me abastecer com mantimentos suficientes para 3 ou mais dias, e conseguir uma boa autonomia no pedal.
  • Se você tem um orçamento mais folgado, há diversos estabelecimentos que servem refeições para peregrinos, com preço em torno de EU10,00 (dez Euros), o que sai mais caro, mas possibilita reduzir o peso na sua magrela;

Para fazer o rolê de bike você vai precisar também das ferramentas básicas e peças de reposição, como sempre:

  • cabos de freio/câmbio;
  • câmara reserva;
  • kit remendo;
  • chaves allen e boca (para desmontar toda a bicicleta);
  • alicate;
  • óleo para corrente;
  • pastilhas de freio reserva;

* O caminho é seguro e tranquilo, mas para evitar aquela pulga atrás da orelha, leve também corrente e cadeado para a magrela, vai que….

O caminho de Santiago é um ótimo percurso para se fazer sozinho ou com amigos, por esporte, religião ou autoconhecimento, independente de credo. Apesar de ser uma longa e dura caminhada (pedalada), centenas de milhares de peregrinos fazem o caminho todos os anos, o que torna difícil passar por muitos trechos sem ver ninguém. Se a sua “pegada” é ficar sozinho deve pensar bem na rota e na época do ano, para evitar surpresas.

Minha maneira de gastar pouco foi levar minha própria casa. Durante o caminho, esse foi meu lar:

  • barraca pequena, de 2 lugares;
  • um saco de dormir;
  • un travesseiro inflável;

Existe uma infinidade de páginas na internet ou centros de informações turísticas que oferecem ajuda para o viajante programar sua peregrinação. Se você precisar de informações ou assistência, há páginas especializadas no caminho para ciclistas, como o http://www.bicigrino.com/en/ em espanhol e português, ou o http://www.caminhodesantiagodebike.com.br/, em português.

Outras páginas:

http://www.santiago-compostela.net/ (página do Caminho de Santiago)

http://www.xacobeo.es/ (sobre o caminho na região da Galícia)

http://caminodesantiago.consumer.es/los-caminos-de-santiago/catalan-por-san-juan-de-la-pena/ (sobre o Caminho Catalão)

Em português:

http://www.santiago.org.br/

http://www.caminhodesantiagodebike.com.br/

Mas lembre-se, tudo isso são apenas recursos para ajudá-lo na sua peregrinação, porque quem faz o caminho é você! Na minha opinião o mais legal é fazer o percurso da sua maneira, seja lá o que isso for.

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2 responses to “Pedalando pelo caminho de Santiago de Compostela – Introdução

  1. Me deu vontade, Eduardo!
    Encontrou “veios” pedalando??
    Quero combinar um encontro quando o Cle está de volta!

    abração

    Wolf

  2. Olá, Wolf!
    Devo admitir que a média de idade dos peregrinos é relativamente alta, o que certamente ajuda a manter um ar bem tranquilo. Vamos combinar algo sim! Grande abraço

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