Caminho de Santiago de bicicleta – O Caminho Catalão (Camino Catalá)

IMG_3831

Uma das inúmeras cidades fortificadas na região da Catalunha

Mesmo sem a credencial do peregrino, decidi que a saída de Barcelona seria o começo do Caminho de Santiago. Particularmente entendo que por ter partido da Holanda pedalando há vários meses, fazia tempo que me tornara um peregrino: me locomovendo sempre de bike; dormindo cada dia em um lugar diferente – no campo, na floresta, em casa de desconhecidos, albergues, etc.; levando comigo panela, fogareiro, água e alimentos além de gastar o mínimo possível de dinheiro. Mesmo com toda essa “bagagem peregrina” meu destino até aquele momento não era exatamente a cidade de Santiago de Compostela e foi por esse motivo que, só quando parti da capital catalã, admiti ser o ponto de partida dessa peregrinação.

IMG_3712

Saindo de Barcelona rumo a Montserrat

Sair de Barcelona de bicicleta é relativamente fácil, mas a atração que senti pelo lugar e a vontade de jamais deixá-lo dificultaram bastante minha partida. Por ter ficado mais de duas semanas na casa de uma amiga que há 8 anos mora na cidade, sentia a necessidade de arrumar minhas coisas e cair na estrada, algo que se tornou parte da minha essência, como a necessidade de comer, beber água ou respirar. Sentia-me incompleto e sabia que a única maneira de contornar a situação era seguir adiante.

IMG_3790

As magnificas montanhas de Montserrat

Me programei para já no primeiro dia chegar no monastério de Montserrat, onde faria a credencial do peregrino e imaginava que poderia dormir sem gastar nada, em um albergue paroquial ou algo do gênero. O caminho foi relativamente tranquilo, embora não houvesse muita indicação da rota para seguir de bicicleta. A região tem um relevo acidentado, mas nenhuma subida muito forte, a não ser nos últimos 7km antes de chegar a Monsterrat. Pedalei por calçadas e vias compartilhadas, por vias exclusivas para bicicletas, ao lado de rios e trilhos de trem, além das pequenas estradas de terra. Alguns trechos se tornam um pouco complicados a medida em que aumentava o número de carros e caminhões na estrada, mas não cheguei a me sentir ameaçado.

IMG_3775

Vista a partir da frente do albergue em Montserrat

Assim que cheguei ao topo da montanha procurei a casa paroquial afim de fazer minha credencial. O estabelecimento estava fechado, já que chegara 15 minutos depois das 17hs. Em quase toda a Espanha os horários de funcionamento dos estabelecimentos são bem rigorosos, e nas cidades menores, por exemplo, os estabelecimentos comerciais estão diariamente fechados entre o meio dia e as 4hs da tarde, por conta da ciesta. Em cidades maiores o comércio fecha só do meio dia as 2hs. Procurei a pessoa responsável pelo albergue e descobri que ela era também a recepcionista de um grande hotel – uma senhora muito gentil que me permitiu dormir aquela noite mesmo sem ter a credencial, que deveria ser feita na manhã seguinte antes de eu devovler as chaves do alojamento. Depois descobri que este era um dos poucos albergues paroquiais e gratuitos no Caminho Catalão, já que o número de peregrinos nesta rota é infinitamente menor do que no Caminho Francês.

IMG_3850

Clima quente e árido durante o dia

Saindo de Montserrat estava seguro que o caminho seguiria montanha abaixo, sem muitas subidas. Estava enganado. A cadeia de montanhas onde eu estava se estendia por boa parte da Catalunha e embora perdesse altitude em direção a Logroño, ainda apresentava bons desafios como subidas íngremes de terra cheias de pedras e com uma vista belíssima. Consegui acampar alguns dias, em um posto de serviço abandonado, atrás de um posto de gasolina e às margens de um rio. Outras noites passei em albergues muito bem cuidados (um municipal de EU6,00 e um particular de EU15,00), além de uma pensão (EU12,00), onde pude relamente descansar e fazer alguns ajustes nos meus planos e na magrela.

Screen shot 2013-12-03 at 21.50.18

Camino Catalá

A região da Catalunha é extremamente interessante e seu povo muito peculiar. O espanhol é falado por toda a parte, mas os moradores preferem sempre o catalão, reforçando as características culturais da região. Os “locais” também possuem uma forte inclinação independentista, que pode ser vista em casas, prédios e pontos turísticos, por meio de enormes bandeiras hasteadas representando o movimento. Além das montanhas, as ruínas, castelos, cidades históricas, alguns rios e canais ajudam a completar a paisagem. Na tentativa de seguir as indicações para pedestres (as famosas setas amarelas), entrei em trilhas extremamente pesadas e densas, próprias somente para pedestres, que me fizeram recorrer ao asfalto. Este vai e vem entre rotas fez com que eu me perdesse inúmeras vezes.

IMG_3865

Se perder em um lugar desses não é má idéia

Num dos meus “erros” de percurso, ainda próximo a Montserrat, desviei cerca de 30km da rota original, que me custaram mais 20km para voltar ao caminho que pretendia seguir, um pouco mais adiante. Não era a primeira vez que passava por este tipo de situação e agora já não me preocupava muito, desde que eu pudesse aproveitar para conhecer coisas novas. E assim foi. Naquela noite encontrei um camipng com a vista de um lago cercado por montanhas, a beira de uma estrada que corta o vale de pequenos cânions. Era um cenário encantador. Esse é o tipo de situação que eu mais gosto, quando o resultado sai melhor do que a encomenda – viajar sozinho de bicicleta tem dessas coisas.

IMG_3871

Não se desespere, apenas aproveite o momento!

A próxima grande cidade do meu caminho era Zaragoza. Para evitar me hospedar ali, onde tinha certeza que o pernoite seria mais alto do que nas pequenas vilas, me programei para dormir bem perto da cidade, e só no dia seguinte atravessar o centro e seguir viagem. O trecho do caminho que corta Zaragoza é muito bonito, seguindo por uma ciclovia dentro de um parque, que acompanha o rio que corta a cidade. Monumentos históricos como palácios, igrejas e uma ponte do século XII estão muito bem preservados e mostram uma cidade onde o moderno e o clássico se completam.

IMG_4005

Ciclovia, calçada e parque ao lado do rio em Zaragoza

A partir dali segui margeando ora o rio Ebro, ora um canal que acompanha seu curso. Era época de maçãs e por isso encontrei um monte de frutas caídas a beira da estrada, uma mais bonita do que a outra. Já havia provado uvas e romãs direto do pé, as primeiras melhores do que as segundas, e sempre ficava atento para as árvores frutíferas, grandes companheiras! Após uma noite acampado à beira do rio, cheguei na pequena cidade de Fraga. Ali um camping particular abriga peregrinos sem nenhum custo, desde que estes tenham uma carta do pároco local. Consegui o documento na Igreja, onde o padre também me deu um par de Melocoton, fruta típica da região, e em seguida já estava bem estabelecido. No dia seguinte pedalei por pequenas estradas de terra ao lado do trilho do trem e de alguns canais, até a última parada, em um albergue municipal, antes de chegar em Logroño, onde me juntaria ao Caminho Francês.

IMG_3918

Acampado na floresta de pinus, atrás de um posto de gasolina a beira da estrada

IMG_3964

Em uma construção abandonada

IMG_4081

A beira do rio. Apesar do desconforto de dormir sobre as pedras, a vista compensa

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s