Santiago de Compostela – O Caminho Português

De Santiago de Compostela a Lisboa

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Cruzando a fronteira Tui/Valença

A saída de Santiago de Compostela foi temperada por uma sensação estranha. A partir dali, muitos peregrinos rumavam a Finisterre, para o que consideram a “etapa final” do caminho. A cidade é palco de um famoso ritual composto pela queima das roupas velhas de cada peregrino e um banho nu no mar, simbolizando a morte do eu antigo e o nascimento (batismo) do seu novo ser. Embora o ponto mais ocidental da Europa seja o Cabo da Rocca, em Portugal, muitas pessoas acreditam que este ponto seja em Finisterre, por isso o lugar recebeu este nome. Sem saber muito bem o motivo, decidi não participar do ritual e seguir direto para o sul, com destino a Lisboa. É claro que eu achava aquilo interessante e também estava curioso, mas acho que tomei esta decisão procurando me isolar um pouco, pelo menos por alguns dias. O Caminho Português era sem dúvida menos concorrido que o Caminho Francês e por isso me antecipei para começa-lo.

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Poema de Antonio Feijó em Pontes de Lima

Naquele momento já havia descoberto que o Caminho Português, saindo do Porto, passando por Fátima e chegando a Santiago de Compostela também era indicado por setas amarelas e seu caminho inverso, partindo da cidade espanhola em direção ao santuário português, por setas azuis. Saí de Santiago sem ver nenhuma indicação azul, mas sabia em que direção seguir, pedalando por uma pista compartilhada com os carros e bem movimentada. Mais tarde descobri que as setas azuis estão mais presentes a partir de Valença, já em território português. Cada região da Espanha possui uma cultura muito característica e logo o comportamento dos motoristas na Galícia, onde estava, era bem diverso de Castilla Y Leon, País Basco ou da Catalunha. A região espanhola mais próxima de Portugal fala o galego, uma língua mais parecida com o português do que o espanhol, e tem costumes e tradições que também se vê no país vizinho. Ali os motoristas não são muito respeitosos e as vezes parece que ignoram a existência do ciclista, em outras tentam tirá-lo da sua frente.

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Típica Igreja portuguesa

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Lavanderia pública em vila portuguesa

Segui em direção a Padrón antes de chegar a Caldas de Reis, uma pequena cidadela com fontes naturais de água quente, muito procuradas pelos peregrinos para relaxar os pés. Após o pouso passei por Pontevedra, Redondela e O Porriño antes de chegar a Tui, onde com um aperto no coração me despediria da caliente Espanha. A primeira cidade portuguesa onde coloquei meus pés foi Valença, na região de Viana do Castelo, com pouco mais de 8 mil habitantes. Naquele momento tive uma ótima impressão do país – prédios históricos e ruas de paralelepípedo muito bem conservados eram o par perfeito para o clima de montanha; o povo português é extremamente cordial e atencioso; a culinária é deliciosa e o custo de vida muito menor do que em qualquer outro país que visitei.

O tempo estava chuvoso e desde a Galicia pedalava por uma região montanhosa, embora sem grandes elevações. IMG_4918Seguia buscando as indicações do caminho (as setas azuis), mas elas nem sempre estavam presentes ou visíveis, o que me levou diversas vezes a pedalar por estradas não muito tranquilas. Seguia em direção a Barcelos e no caminho passei pela charmosa Pontes de Lima, onde parei na primeira pastelaria (doceria), para me esbaldar com as maiores delícias que alguém pode fazer utilizando ovos e açúcar. Os pastéis portugueses são muito tradicionais em todo o país e é impossível resistir. Além disso, cada região tem seus pratos típicos, como o Leitão à Bairrada na costa, o Caldo Verde entre o Douro e o Minho, a Alheira de Mirandela entre Tras dos Montes e Alto do Douro e assim por diante. Assim sendo, em cada nova região uma nova delícia, por um preço acessível mesmo para quem viajava com um orçamento de EU$12,00/dia. Era tempo de recuperar com muito prazer o peso perdido até aqui.

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Barcelos vista a partir de Barcelinhos

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Centro do Porto chuvoso

Me hospedei em um albergue em Barcelinhos, uma pequena cidade ao lado da também pequena porém muito agradável Barcelos. O dia seguinte acordou com muita chuva. Protegi a mim e ao equipamento e segui com o Porto como destino, sem nenhuma pressa. A quantidade de igrejas e capelas em Portugal é quase imensurável, mas notei que alguns monumentos históricos como palácios e castelos não estão em sua melhor forma – havia por toda parte sinais de abandono de um patrimônio importantíssimo para a história dos nossos colonizadores, o que não chega a comprometer a viagem, mas é uma pena.

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Parte da fachada da Estação São Bento no Porto

O Porto é a segunda maior cidade portuguesa e, assim mesmo, um lugar encantador onde eu adoraria de ter ficado um pouco mais. A arquitetura lembra um pouco a de Salvador, porém em condições muito melhores e ao invés do mar, a cidade margeia o rio. As margens do rio foram totalmente revitalizadas e hoje recebem boa parte dos turistas que visitam a cidade, atrás de bares e restaurantes ou mesmo para uma caminhada. A praça em frente a prefeitura é belíssima, o mesmo vale para a estação São Bento, famosa por seus azulejos e para o bairro da Sé, que ainda conserva ares de zona portuária. A região metropolitana do Porto também é legal, com muitas praças e conjuntos habitacionais, porém para chegar ali de bicicleta foi um pouco sofrido. Embora seguisse as placas de estradas menores, onde a bicicleta era permitida, fui jogado em uma espécie de anel viário que oferecia enorme risco para um ciclista: uma via com mais de 10 faixas e velocidade de 100km/h não é moleza. Assim que pude fugi pelas ruas de um pequeno conjunto habitacional e pedi informações. Estava perto do Porto e consegui corrigir meu erro.

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Coimbra, vista a partir de Santa Clara

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MEsmo sem infraestrutura adequada fazem propaganda

Deixei a cidade passando pela Vila Nova de Gaia, Grijó e segui adiante, em direção a Coimbra. Embora as estradas sejam meio ruins para viajar de bicicleta, Portugal é um país realmente bonito e se você conseguir pegar as vias menores, não irá se arrepender. Passei por montanhas, vilas e bosques, acompanhado por um clima levemente chuvoso. O verão já havia terminado e a época das chuvas chegava com mais força a cada dia. Em Coimbra fiz uma parada para comer os Pastéis de Santa Clara, na cidade de mesmo nome, do outro lado da ponte. Depois parti para Santarém. Além dos prédios históricos, ruas de paralelepípedo, igrejas, monumentos, bosques, pontes e rios maravilhosos, o país tem uma língua riquíssima e soube se apropriar disso. É comum notar em vários aparatos públicos a presença de plaquinhas, as vezes azulejos, com poemas de escritores portugueses. A poesia está presente em toda parte, mesmo!

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Caindo em tentação

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Albergue na escola da pequena Cernache

Quando saí de Coimbra ainda chovia, mas assim mesmo encontrei abrigo em um albergue numa cidade de 4 mil habitantes, chamada Cernache. O refúgio pertencia a escola do município que ficava em um campus incrível, com lago, bosque, quadras e diversos prédios em ótimas condições. A casa que recebia peregrinos e também monitores ou campistas acabara de ser reformada e pude dormir em um quarto sozinho. Em conversa com o segurança que cuidava da entrada e saída de pessoas e veículos, elogiei as instalações da escola municipal, dizendo que aquele lugar era incrível. Ele me respondeu surpreso: “Mas é claro, é uma escola!”. Até hoje não me esqueço disso….
Após um verdadeiro pé d’agua que caiu durante toda a noite, acordei e segui viagem. Pedalava ora acompanhado de peregrinos a pé, ora sozinho ou com carros zunindo bem perto da minha orelha. Não há tanta gente caminhando para Fátima quanto para Santiago, mas ao chegar ao Santuário, nota-se que a concentração de pessoas é grande, principalmente em excursões de ônibus. As vagas para hospedagem na cidade são concorridíssimas e quem chega no final da tarde pode se complicar. Curiosamente o albergue para peregrinos (onde é necessário apresentar sua credencial carimbada) estava completamente vazio na hora que cheguei e depois de mim só apareceram mais 4 pessoas. Como recebe muita gente durante o ano todo, a região do santuário é super acessível para pedestres e ciclistas, uma exceção neste país.

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Santuário de Fátima

A saída foi tranquila e mal podia conter minha ansiedade, já que a cada dia estava mais próximo do ponto final. Antes de chegar em Lisboa encontrei abrigo em um quartel do corpo de bombeiros, em Santarém. Até pouco tempo atrás era muito comum que os bombeiros portugueses acolhessem peregrinos, por apenas uma noite, já que não havia albergues. Hoje alguns albergues substituíram a prática dos bombeiros e em outros lugares não há qualquer uma das opções. De Santarém segui para Lisboa, sem imaginar que ainda seria surpreendido.

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Mercado Municipal de Santarém

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