Caminho da Fé e Estrada Real de bicicleta – ou quase isso

Depois que decidi fazer uma das rotas de peregrinação mais famosas do Brasil em bicicleta me cansei de procurar referências online de quem já tivesse realizado o percurso acampando na natureza. Nenhum resultado. Nada. Zero! Para passar a virada do ano pedalando sem o ziriguidum, as estripulias, os fogos, pessoas borrrrratchas e música ruim que todo reveillon carrega na bagagem, acampar é sempre uma boa opção, e mesmo sem nenhuma dica, achei que poderia ser o primeiro a compartilhar as experiências de pedal com camping selvagem no Caminho da Fé, mas me enganei.

Um pouco da vista ao longo do caminho

A ideia era basicamente me enfiar no mato e só sair de lá quando a temporada de falta de amor próprio da humanidade acabasse (esses momentos que em nome da alegria e da festa se sacrificam o respeito e a sociabilidade). Então aproveitei que passaria o Natal com a família em Águas da Prata e decidi pedalar dali até Aparecida, seguir até Cunha e descer a Estrada Real até Paraty, onde finalmente pegaria um ônibus para evitar a todo custo pedalar na Rio-Santos numa época em que motoristas alcolizados trafegam pelo acostamento com a mesma naturalidade que cristãos opositores às religiões de matriz africana pulam 7 ondinhas reverenciando Iemanjá. O trajeto combinaria portanto o Caminho da Fé com o trecho final da Estrada Real, percorrendo basicamente a Serra da Mantiqueira e trechos da Bocaina e Serra do Mar, quase 90% em estradas de terra e por pequenas cidades do interior.

Um pouco da neblina característica das serras

Para quem não sabe, o Caminho da Fé foi criado pelo Almiro Grings, morador de Águas da Prata com quem tive o prazer de bater um papo após ser apresentado a ele pela minha avó, também moradora da pequena estância hidromineral. Grings se inspirou no famoso Caminho de Santiago de Compostela e nas tradicionais romarias para, com a ajuda de alguns contatos, estabelecer um percurso a pé acompanhando a Serra da Mantiqueira, partindo da região Alta-Mogiana (SP), passando pelo Sul de Minas até o santuário de Aparecida (novamente no estado de SP), o maior templo católico do mundo fora do Vaticano. Assim como a rota para Santiago de Compostela o Caminho da Fé é todo indicado por setas amarelas, percorrendo estradas majoritariamente de terra e sempre montanhosas, mas com uma rede razoável de hospedarias (albergues, pousadas, hotéis) de preços variados.

 

Dia 1

Bicicleta pronta para a saída em Águas da Prata

Parti no dia 27 de dezembro com a bicicleta mais pesada do que eu poderia aguentar. Mesmo estando meio fora de forma (estava um pouco afastado das cicloviagens) acreditei que seria uma questão de tempo até me aIMG_0011costumar com o conjunto. Foi o meu primeiro engano. Já na subida do Pico do Gavião comecei a penar. Parei na cachoeira da Ponte de Pedra, menos de 10km do ponto de partida e tomei um banho no rio. Fiquei lá até que começou a chover e eu passei a considerar acampar ali (o lugar é perfeito) mas percebi que se não continuasse minha viagem não terminaria nem no final dom ano que estava por começar.

 

Uma das piscinas da cachoeira da Ponte de Pedra

 

Ponte de PedraIMG_0020 IMG_0026

Debaixo de uma chuva fina subi a montanha pedalando muito pouco e empurrando muito! Foi uma canseira danada e absolutamente todos os peregrinos que cruzaram meu caminho me deixaram para trás. Assim mesmo passei por Andradas e com pouco mais de 30km de viagem tive que procurar lugar para montar minha barraca. Estava escurecendo e eu estava realmente cansado. Já sentia que havia subestimado o caminho, extremamente pesado embora muito bonito.

 

Dia 2

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IMG_0094Após o acampamento em uma plantação de Café, o segundo dia de viagem (28) começou sem chuva mas pesado, com muitas subidas até a cidade de Ouro Fino, onde sem muita opção me dirigi até uma agência dos Correios e despachei 12kg da minha bagagem – saco de dormir, isolante térmico, barraca, fogareiro, panelas, algumas roupas, comida e um pouco de tudo. Era a hora de deixar o orgulho de lado e admitir que teria de fazer o caminho da forma tradicional – com o mínimo de peso na magrela e dormindo e me alimentando como os demais peregrinos. Nota-se que para quem viaja sozinho o mínimo de peso é um pouco mais do que para quem viaja em grupo, já que é imperativo levar um kit de primeiros socorros pra você e pra bike.IMG_0098

A chuva começou a partir das 11hs da manhã e durou o dia todo. Cheguei até a cidade de Inconfidentes com 75km percorridos (acumulado), contando a pesada travessia da Serra dos Lima, a passagem pela Barra (onde tomei um café preto num alojamento encantador) e o tempo perdido nos Correios. O pouso foi num hotel de caminhoneiros à beira da estrada, em cima de um posto de gasolina.

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Dia 3

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O vai-vem de caminhões durante a madrugada, o cheiro de benzeno, o papo alto dos caminhoneiros e um monte de pernilongos fizeram com que esta noite não fosse exatamente de descanso. Acordei moído, mas pelo menos com um conjunto mais leve e a certeza de que seria possível seguir em frente. Numa viagem como estas é natural ter que refazer os planos, tomei como uma boa lição de humildade.

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Saindo debaixo de chuva peguei uma parte relativamente plana ao longo do Rio da Onça que precedeu a travessia de uma serra mais dura, entre Borda da Mata e Tocos do Mogi, cidade onde pernoitei. Optei por não forçar muito pois estava com duas noites mal dormidas nas costas e a sequencia do caminho seria por outra serra ainda mais pesada. Também aproveitei para fazer a manutenção da magrela que sofria bastante com as condições climáticas e das estradas. Ao final deste dia havia acumulado 121km rodados, aumentando um pouco a média para 40 km/dia. Cruzei apenas 2 peregrinos de bicicleta durante o percurso e na cidade de Tocos vi outros 3 procurando albergues. Só.

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Há quem faça todo o percurso em apenas 3 dias, pedalando cerca de 100km por dia, geralmente no inverno e com um bom preparo. Nota-se failmente que este não é meu tipo de viagem, eu prefiro aproveitar o caminho do que “fazer um treino”, então não me incomodava muito com a baixa quilometragem/dia.

 

Dia 4

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IMG_0191No dia 30 de dezembro a pequena cidade de Tocos do Mogi amanheceu chuvosa. Seria o quarto dia consecutivo debaixo d’água em estradas de terra com variações de altitude e inclinação bastante consideráveis. O fato de não encontrar muita gente caminhando ou pedalando só confirmaram minha intuição de que a maioiria das pessoas prefere fazer esta viagem durante o inverno, com temperaturas mais amenas e menos chuvas, conseqIMG_0197uentemente com melhor condições das estradas.

Estava um pouco frio e tive que tirar forças sabe lá de onde para atravessar a Serra do Caçador. Muita lama e neblina expessa, uma paisagem linda e um clima divino. Apesar de ter tido a primeira boa noite de descanso da viagem, mantive o mesmo ritmo e ao final da jornada havia pedalado mais 40km, passando por Estiva e chegando em Consolação. Em alguns pontos cheguei a pensar que deveria voltar ali com o equipamento de camping.

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Dia 5

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Em Consolação pernoitei em um Casarão antigo que foi transformado em pousada. A proprietária era muito simpática porém a casa estava caindo aos pedaços. Não me importo nem um pouco com a falta de luxo mas me entristece ver um típico casarão colonial, praticamente um patrimônio histórico brasileiro, nestas condições.

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Na saída, ainda meio inseguro quanto às condições das estradas e nesta que era a última manhã do ano optei por sair da rota e seguir o antigo Caminho da Fé, passando por São Bento do Sapucaí, Sapucaí Mirim, Santo Antônio do Pinhal e Pinda. O caminho novo segue pela Luminosa, uma serra bem pesada com destino a Campos do Jordão. Foram dois motivos que me levaram a fazer esta opção: o primeiro deles a dificuldade que enfrentaria – já estava cansado e pedalar pelo quinto dia debaixo de chuva pegando a subida mais dura seria demais pra mim e o segundo é que eu já conheço Campos do Jordão e achei que seria uma boa oportunidade para conhecer outras cidades. Passei pela simpática cidade de Paraisópolis antes de chegar a São Bento e fui agraciado o primeiro dia de sol desde que saí.

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A via a partir de Paraisópolis é asfaltada, e até que é bonita e gostosa de pedalar, (em alguns pontos dá vista para a Pedra do Baú) mas segue meio chata até São Bento porque não tem acostamento e o final do ano é a época preferida dos motoristas para matar gente nas estradas – basta ver os índices de mortes nas rodovias neste período. Passando São Bento e Sapucaí Mirim resolvi sair da pista para um trecho de terra em uma rodovia alternativa para Santo Antônio do Pinhal, evitando o trecho sem acostamento e garantindo que chegaria inteiro em 2016. as dicas eu peguei em um posto de gasolina bem na entrada de Sapucaí Mirim.

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Este trecho do pedal é bem maneirinho, da pra fazer numa boa, desde que esteja sem pressa. Embora sem nenhuma grande serra o trecho perto de Santo Antonio é de sobe desce constante, utilizado por ciclistas de velocidade em treinamento, mas passa ao lado de um rio com direito a banho de cachoeira. Há um pequeno boteco ao lado da cachoeira onde até fui convidado para comer um churrasco – belisquei apenas alguns pedacinhos de carne, agradeci meus novos amigos e segui meu caminho. Chegando em Santo Antonio do Pinhal todas as pousadas estavam lotadas devido ao ano novo. Achei um alojamento de uma pousada que era o dormitório dos funcionários e graças à gentilzea da gerente pude ocupar uma cama durante aquela noite. As 22hs estava deitado para seguir no dia seguinte até Aparecida.

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Dia 6

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Saí de Santo Antônio do Pinhal um pouco mais tarde do que de costume, por volta das 8 horas, seguindo em direção a Pindamonhangaba. Chegando à antiga estação Eugênio Lefevre optei por seguir as setas amarelas, que indicavam um caminho ao longo da linha de trem. Geralmente quem faz o percurso de bicicleta opta por descer pela pista, já que é impossível pedalar em cima dos trilhos.

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Embora eu já tivesse passado por algumas experiências desastrosas seguindo uma linha de trem (como no rolê São Paulo – Paúba), meu coração não se aguentou e eu decidi repetir a dose. É um pouco angustiante caminhar ali sem saber por quantos quilometros. Outro ponto complicado é que a bicicleta acaba sendo prejudicada, todo cuidado é pouco. Mais uma vez percebi o quanto este caminho ainda é muito mais propício para quem vai a pé, mas o visual não decepcionou.

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IMG_3144Fiz absolutamente sozinho o caminho passando pela Santa bem na entrada dos trilhos até uma saída no meio da serra, sem ver uma pessoa sequer. A partir dali uma estradinha de terra segue passando por Piracuama, beirando um rio com algumas opções de banho até bem perto de Pindamonhangaba. Antes de chegar em Pinda as setas indicam uma estrada vicinal até Aparecida. Por ali ainda faltavam uns bons kms. Parei para descansar nos fundos de um restaurante de beira de estrada que estava fechado. Era o primeiro dia do ano, o feriado conhecido como Dia da Confraternização Universal.

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IMG_0329Um senhor que passava por ali com seu neto me convidou para almoçar. Aceitei. A casa era simples mas muito acolhedora. Sentei à mesa com sua família, comi muito melhor do que em qualquer dia da última semana e de quebra ainda me estiquei para descansar deitado numa rede. Veio a chuva que logo passou e pude seguir meu caminho. Trocamos telefones e IMG_0340eu segui viagem. Confesso que estas interações são a parte mais interessante de uma viagem de bicicleta, pelo menos na minha opinião. Dali o caminho seguiu tranquilo, sem maiores obstáculos até o Santuário de Aparecida. Encontrei um hotelzinho barato, tomei um banho e fui conhecer o templo. Levei comigo a credencial do Peregrino, um documento que fiz em Águas da Prata e deveria ser carimbado ao longo do trajeto para que ao final o viajante obtenha um certificado. Não consegui muitos carimbos e o atendimento ao romeiro estava fechado. Guardei o documento como recordação, comi um lanche e decidi voltar para meu quarto, já que o dia seguinte seria uma nova etapa nesta viagem.

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Ao final daquele dia havia acumulado 297kms no meu ciclo-computador, porém eu esqueci de acionar o equipamento em alguns momentos e deixei de contabilizar alguns kms. A média da viagem até aqui ficou em torno de 50km/dia.

 

Dia 7 – Estrada Real

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A Estrada Real era a rota dos minérios na época do Brasil Colônia desde Diamantina (interior de MG) até o porto de Paraty com destino à Europa. Escolhi um trecho dela porque é justamente a descida da serra de Cunha/Paraty, um percurso que há tempos ansiava realizar. Saí de Aparecida com destino à Cunha, passando antes por Guaratinguetá. As 10h30 estava em Cunha, de onde ainda tinha muito chão pela frente antes de começar a descida. Aliás, tinha muita subida antes de qualquer coisa.

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No começo parece que vai bem, mas o negócio começa a apertar e temi até ficar sem água! Olha que eu pedalava com 4 litros de água na bagagem. Tive que parar e reabastecer em uma casa a beira da estrada quando já havia subido a parte mais difícil. Dali continua subindo gradativamente até chegar em uma cachoeira. Parei para um banho, obviamente. O dia estava claro e bem quente, até então sem sinal de chuva. Foi só ao sair da cachoeira que notei a aproximação de algumas nuvens pesadas, Peguei minhas coisas e voltei à subida.

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Antes de chegar ao cume a serra foi tomada por uma densa neblina, o que me deixou apreensivo – seria dificil e pouco prudente pedalar nestas condições, quando me tronaria praticamente invisível para os motoristas que subiam a serra acelerando. Foi então que a água veio em bom volume. A chuva que caía com força limpou a neblina mas trouxe outra situação preocupante – a pista virou um pequeno rio. Me abriguei, coloquei a capa de chuva, protegi minha bagagem e segui na medida do possível, parando de pouco em pouco até chegar no início da descida.

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A partir dali a pista se torna ainda mais bonita, cortando a mata fechada e revestida por bloquetes. Alguns trechos ainda permanecem de terra, mas as obras de pavimentação estão bem avançadas. Ainda assim a serra oferece riscos – é bastante íngreme, cheia de curvas, muita neblina e em caso de chuva mais perigosa. Minha sorte é que eu estava no contra-fluxo mas o movimento para subir era intenso enquanto eu descia com as mãos sempre apertando os freios. A chuva começou a castigar na medida em que apertava e se acumulava – tive que parar muitas vezes para descansar os dedos das mãos de tanto apertar os freios.

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Ao final da famosa descida Cunha/Paraty a estrada segue plana por uns 6 kms até o centro de Paraty. Este trecho parecia um rio de tanta água que descia da montanha e pela estarada. Parei para tomar um café antes de me dirigir à rodoviária para ir embora. Era o segundo dia do ano e a cidade estava debaixo d’agua, completamente alagada. De bicicleta cheguei tranquilamente à rodoviária, mas os ônibus ainda atrasariam muito. Após ter pedalado pouco mais de 400km tive bastante tempo para descansar e peguei o primeiro ônibus que saía para Ubatuba, de onde seguiria sem pedalar para Bertioga, já que a Rio-Santos em época de reveillon não é tão amigável com o ciclista.

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5 responses to “Caminho da Fé e Estrada Real de bicicleta – ou quase isso

  1. Lindo relato de sua viagem, Du!
    As dificuldades são inevitáveis, mas são essas “pedreiras” que nos fazem crescer. Fiquei tentado a repetir o caminho..no inverno, claro. Mas aos 60 e poucos sei lá se aguento o tranco.
    Abraços do Mq

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